MENINO RABINO

Casamento ‘Gay’ e Império Galáctico

6 Outubro 2008 · 3 Comentários

Hoje a política segue as regras dramáticas dos filmes de aventuras. Como o nosso tempo cresceu à sombra de 007Indiana JonesStar Wars e outras ficções, elas modelaram a nossa sensibilidade. Os exemplos poderiam multiplicar-se, mas a tragicomédia que agora se encena em Portugal à volta da “magna” questão do casamento dos homossexuais parece um caso de antologia.

A história começa com um pequeno punhado de jovens e intrépidos heróis que desafia a instituição vetusta e paralisante, atrevidamente lançando uma provocação. Os espectadores sustêm a respiração perante a audácia, intimamente aplaudindo a bravura. Entretanto, naturalmente, a sociedade gorda, preconceituosa e estúpida, guincha de horror face à justa proposta. A decisão, porém, será tomada nos cumes irrespiráveis do poder, onde os heróis não podem entrar, apesar de aí possuírem simpatias. O supremo líder, que no fundo é boa pessoa, até concorda com a causa nobre. Ele sabe que o futuro pertence aos revolucionários e que a sociedade apodrecida vai morrer. Mas para já tem de ceder aos intrincados equilíbrios e acaba por adiar o confronto para a próxima legislatura. Desta vez a justiça foi sufocada mas não percam o segundo episódio.

Nos dias que correm a política tem cada vez menos a ver com os reais problemas, sendo crescentemente um espectáculo de entretenimento. Não admira que adopte as regras do género. Portugal tem gravíssimas dificuldades de vária ordem. Exactamente quais são e como se resolvem é assunto menor da actualidade, entretanto obcecada com temas laterais, fictícios ou simplesmente tontos, mas muito dramáticos: lutas internas do PSD, eleições americanas, um empolado surto criminal e, claro, o casamento dos homossexuais.

Este último é o mais curioso porque, falho de conteúdo, tem os contornos largamente determinados pelas formas cinematográficas. A questão é introduzida como um decisivo combate de civilização a favor da justiça e dos direitos fundamentais. Mas a pose é oca e infundada, pois as mesmas forças políticas têm feito tudo o que podem para desqualificar o casamento como força válida na sociedade. Além disso, se é indispensável regularizar a situação doméstica desses casais, porque não da miríade de outras circunstâncias familiares e relacionais que não possuem cobertura jurídica? Apesar de tudo o número de coabitações de irmãos, tios, sobrinhos ou amigos é maior que a dosgays, para não falar dos casos de poligamia, incesto e pedofilia, que a mesma sociedade (ainda) insiste em repudiar. Porquê esta obsessão com uma situação particular?

O Estado não regula o amor entre pessoas. Se o fizesse teria de criar muitos contratos além do casamento. A lógica da instituição matrimonial vem das implicações estruturais na sociedade da união fecunda entre mulher e homem, incomparáveis com as de qualquer outra. Escamotear isto e tratar o contrato como um direito do amor mútuo é uma tolice.

O enredo baseia-se num silêncio ensurdecedor. Todos os participantes no debate fingem ignorar um facto central, que traz o picante ao drama. A grande maioria da população considera a homossexualidade uma depravação, um acto intrinsecamente desordenado e contrário à natureza. Não se trata de um preconceito, mas de uma opinião válida e legítima a ponderar. E não deve ser confundida com homofobia, que é agressão ou discriminação de pessoas. É possível discordar fortemente da orientação de alguém, tratando-o com respeito e consideração. É isso a democracia e é assim que somos chamados a lidar com fumadores, racistas, poluidores.

Infelizmente não são tratados assim os que se opõem à reforma. No caso dos homossexuais a única atitude admissível parece ser a aceitação do dogma intocável da sua perfeita equivalência com sexualidade normal. Assim, o combate pelo casamento gay representa um teste a esse sacrossanto mandamento da equivalência. Deixa de ser um debate político, para se transformar em cruzada quasi-religiosa. O assunto toma a emoção de Luke Skywalker enfrentando o Império Galáctico.

in “Diário de Noticias” 06 de Outubro de 2008

Categorias: Opinião e comentário · Polémica e controvérsia · Política e cidadania
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3 respostas até agora ↓

  • Duarte Sousa // 7 Outubro 2008 às 5:46 pm | Responder

    “Porquê esta obsessão com uma situação particular?”

    O casamento de homosexuais é a meu ver um questão de menor importância a nível nacional. Portugal defronta-se neste momento com questões muito mais graves como o desemprego, a falência de empresas, o crédito mal parado, o aumento da inflação, a inversão da nossa pirâmide etária, a deterioração de património histórico e cultural, o aumento da criminalidade etc.

    No entanto, apesar da pressão exercida pelo lobbie gay relativamente a esta questão, são pessoas como João César das Neves que ainda vêm deitar mais lenha na fogueira. Porquê tantos comentários em relação a este tema? A obsessão até já parece mais dele do que dos gays.

    Agora também digo uma coisa: se for legalizado o casamente entre homosexuais, espero não ser bombardeado com notícias sobre o assunto. As imagens de gays são perfeitamente dispensáveis (excepto no caso feminino).

    Por isso, o melhor é despachar a questão o mais rápido possível com o mínimo de controvérsia possível, porque é precisamente isso que atrai a atenção dos media e toda esta obsessão dos gays e do JCN.

    PS: Já que se fala em casamentos gays, o que dizer do casamente entre um homem e mais do que uma mulher? Isso é que era verdadeiramente notável!! Heheheh

  • Marco Moreyra // 7 Outubro 2008 às 10:40 pm | Responder

    Recorrendo ao popularismo:
    Pois o problema é começar dar um dedinho, pr’a semana levam o braço todo…

    A questão dos casamentos gay é só a ponta do iceberg… preparem-se!!!

    Ainda bem esta “Obsessão” do JCN porque ninguém consegue tão objectiva e brilhantemente consegue dizer umas quantas verdades sobre os lobbies gay e culturas alternativas.

  • Duarte Sousa // 8 Outubro 2008 às 1:00 am | Responder

    “Pois o problema é começar dar um dedinho, pr’a semana levam o braço todo…

    A questão dos casamentos gay é só a ponta do iceberg… preparem-se!!!”

    Atenção, a mim não me incomoda nada que essas pessoas se casem pelo Estado. Até acho que têm esse direito.

    E também não vejo como é que o casamento entre homosexuais possa afectar a vida dos heterosexuais.

    A si afecta-o pessoalmente? Em que medida?

    “Ainda bem esta “Obsessão” do JCN porque ninguém consegue tão objectiva e brilhantemente consegue dizer umas quantas verdades sobre os lobbies gay e culturas alternativas”

    Infelizmente, a obsessão do JCN apenas atrai mais publicidade para esta questão. Eu por mim já estou farto de ver gays e pessoas da Igreja a discutirem esta questão quando o país enfrenta problemas muito mais graves. Mas se querem fazer disto um show, força! Apenas lhes concedem mais notoriedade na TV.

    Quanto ao “resto do iceberg”, que pelos vistos o Marco receia um pouco, temos de se precisos sobre o que está aqui em causa.

    Estamos a falar de casamentos entre um homem e mais do que uma mulher? Casamento entre adultos e menores de idade? Adopção de crianças por parte de casais homosexuais?

    Aqui temos de jogar com o bom senso e pensar nos direitos das pessoas em causa, assim como nas possíveis consequências sociais que possam decorrer da legalização de tais medidas.

    Nestas três possibilidades que referi acima já vejo razões para a sociedade demonstrar a sua preocupação, uma vez que se tratam de medidas que implicam a interferência com direitos das crianças e respectivo processo de aprendizagem e integração social.

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